Encruzilhada: Quatro Caminhos, Uma Escolha

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Escrito Por Serginho Clemente
Art By Tizzy
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INDICAÇÕES

Gênero: Teatro do Quotidiano
Classificação Indicativa: 16 anos

LOCAL DA HISTÓRIA 

Rio de Janeiro/RJ – Brasil

ÉPOCA

2003

SINOPSE

Rodrigo e Ruan são dois amigos, que decidem sair de Cabo Frio/RJ, com suas respectivas namoradas, para tentar conseguir vagas de um bom trabalho na cidade do Rio de Janeiro. Chegando à cidade grande, os casais são vítimas da violência urbana e para completar, Rodrigo e Ruan, não conseguem as vagas do tão sonhado trabalho. Sem saberem o que fazer, os casais se vêem em uma encruzilhada da vida, com quatro caminhos para escolherem. Uma história impressionante, que irá lhe mostrar, que cada caminho da encruzilhada tem um fim, e a escolha, é você quem faz.

PERSONAGENS

RODRIGO
(Rapaz que escolhe o caminho difícil)

RUAN
(Rapaz que escolhe o caminho fácil)

LUIZA
(Namorada de Rodrigo)

DENISE
(Namorada de Ruan)

DOLORES
(Dona da quitinete)

OLINDA
(Pastora evangélica)

ELIOMAR / RABIOLA
(Evangélico)

PEDRO / METRALHA
(Assaltante)

CAPIXABA
(Vagabundo)

JOHNIE
(Mulher líder de uma facção criminosa)

LUCIANO / MARRETA
(Vice-líder da facção criminosa de Johnie)

BICUDO
(Bandido da facção criminosa de Johnie)

TORRESMO
(Bandido da facção criminosa de Johnie)

SARGENTO FRANÇA
(Policial Militar)

CABO NEVES
(Policial Militar)

ATO I

Noite. Após uma tentativa frustrada de tentarem passar a noite na Rodoviária Novo Rio; Rodrigo, Luiza, Ruan e Denise foram parar em uma praça deserta e sombria perto do local.

Cena 1.1

      Metralha está sentado em um banco da praça, observando tudo e ouvindo um som em seu discman. Em outro ponto da praça, Dolores também está sentada em um banco, portando sua bolsa, relógio de pulso e celular. Ela espera a pastora Olinda e Eliomar, que juntos, fazem uma oração em outra extremidade da praça.

RODRIGO

      “Caramba... fiscal todo marrento! O cara não podia deixar a gente ficar, pelo o menos essa noite na rodoviária?”

LUIZA

      “Ele tá certo, amor! Rodoviária não é hotel, não!”

RUAN

      “Ele podia deixar a gente ficar lá, pelo o menos até amanhã de manhã! Agora nós vamos ficar zanzando por aí, a essa hora da noite, sem ter pra onde ir...”

DENISE

      “O pior é que a gente não tem parente, amigo... nós não conhecemos ninguém que more aqui no Rio!”

               (Rodrigo se senta em um banco da praça)

LUIZA

      “Olha só que praça escura ...”

               (Ruan observa Rodrigo)

RUAN

      “Ah, não acredito... Rodrigo, levanta! Vamos agilizar! Pra onde nós vamos?”

DENISE

      “Vai, gente! Decide logo! Eu tô morrendo de dor de cabeça...”

RODRIGO 

      “Já sei! Já sei! O que vocês acham da gente passar essa madrugada, no hotel de um real?”

               (Luiza sente pavor do lugar)

LUIZA

      “Você tá maluco, Rodrigo? Esse lugar deve ser todo sujo, cheio de rato, barata...”

              (Ruan não conforma a frescura de Luiza)

RUAN

      “Você tá querendo escolher, Luiza? A gente só tem cinqüenta reais e não temos para onde ir...”

DENISE

      “Deixa de frescura, Luiza! Eu tô morrendo de dor de cabeça e não vejo à hora de descansar!”

LUIZA

      “Tá, então vamos!”

RUAN

      “Mais, Rodrigo! Onde fica esse hotel de um real?”

RODRIGO

      “Não sei, cara... a gente precisa se informar!”

DENISE

      “Será que tem vaga lá uma hora dessas?”

              (Ruan observa Dolores)

RUAN

      “Isso é o que veremos, amor... ...Gente, vamos perguntar aquela moça! Ela deve saber!”

RODRIGO

      “É, boa idéia!”

Cena 1.2

      Dolores está sentada em um dos bancos da praça e os casais vão em direção á ela. Rodrigo vai até Dolores.

RODRIGO 

      “Com licença! Boa noite!"

DOLORES

      “Boa noite!”

RODRIGO

      “Você sabe me informar, onde fica o hotel popular? Aquele hotel de um real?”

              (Dolores se levanta do banco e medita rapidamente)

DOLORES

      “Hum... não sei te informar, não... Eu estou esperando uma amiga! Ela trabalha aqui no Centro e eu acho que ela deve saber onde fica!”

RODRIGO

      “Tudo bem, obrigado...”

DOLORES

      “Espera a minha amiga!”

RODRIGO

      “Cadê ela?”

DOLORES

      “É aquela moça ali!”

              (Dolores mostra a pastora Olinda e os casais a observam orando com Eliomar)

RODRIGO

      “Aquela moça?”

DOLORES

      “É!”

DENISE

      “Ih, gente... ela deve demorar! Vamos se informar em outro lugar...”

DOLORES

      “Não, espera só um pouquinho! Ela já deve está acabando! É até melhor vocês perguntarem a ela, do que saírem andando por aí! Esse lugar é perigoso! Volte e meia, tem assalto e até morte, por aqui!”

DENISE

      “É que a gente tá com pressa, moça! Nós chegamos de Cabo Frio agora! Eu tenho quase certeza, que ela vai demorar...”

DOLORES

      “Não... Ela já deve está terminando! Esperem... Hoje em dia, não se pode confiar em ninguém! Esse mundo está muito perigoso!”

RUAN

      “Será que se eu ir lá perguntar, ela me informa?”

DOLORES

      “É... tenta falar com ela!”

DENISE

      “É, amor! De repente você consegue!”

              (Ruan vai à Olinda, e a chama)

RUAN

      “Com licença... boa noite... senhorita...”

              (Olinda sequer abre os olhos, Eliomar e ela continuam orando. Ruan retorna)

RUAN

      “Não deu! E agora?”

              (Rodrigo observa Metralha)

RODRIGO

      “Vamos perguntar aquele rapaz?”

              (Ruan, Denise e Luiza observam o rapaz e não ficam com uma boa impressão dele)

LUIZA

      “É melhor não perguntar, não, Rodrigo!”

DENISE

      “Vamos se informar em outro lugar...”

RUAN

      “É melhor mesmo, Rodrigo!”

RODRIGO

      “Então, vamos ir embora! Boa noite, moça! Muito obrigado e desculpe o incômodo, tchau!”

DOLORES

      “Que nada... cuidado, tchau!”

              (Dolores se senta e os casais tomam destino)

Cena 1.3

      Metralha tira os fones dos ouvidos e se levanta de seu banco.

METRALHA

      “Hei, vocês!”

              (Surpresos, os casais olham para Metralha)

METRALHA

      “Cês mermo! Cês tão perdidos? Eu posso ajudar vocês?”

RODRIGO

      “Não, não precisa, não! A gente tá de saída!”

              (Metralha saca o seu revolver e aponta para os casais. Dolores se levanta e fica atônita)

METRALHA

      “Não tá mais! Não tá mais! Perdeu, perdeu! Passa tudo, passa tudo! Perdeu! Todo mundo passa tudo!”

              (Os casais se rendem ao assaltante e entregam a ele todos seus pertences. Olinda e Eliomar param de orar e observam o que está acontecendo. Rapidamente, Eliomar vai à direção de Metralha)

ELIOMAR

      “Não faça isso, irmão!”

METRALHA

      “Quem te disse que eu sou teu irmão?”

              (Metralha mata Eliomar a sangue-frio e vai até Dolores. Desesperada, Olinda vai até o corpo de Eliomar e fica muito chocada)

METRALHA

      “Passa tudo, mocréia! Coloca tudo dentro da bolsa! Vai, mocréia! Eu não tenho a noite toda...” 

              (Dolores passa tudo o que tem á Metralha. Em seguida, Metralha vai até Olinda)

METRALHA

      “Irmã! Passa a chave do carro!”

OLINDA

      “Que carro?”

              (Metralha dá chutes em Olinda)

METRALHA

      “Tá pensando que eu sou otário? Tá pensando que eu sou idiota? Passa a chave do carro senão eu te mato!”

              (Olinda entrega as chaves de seu carro para Metralha que em seguida foge, levando consigo tudo o que roubou)

Cena 1.4

      As mulheres entram em pânico e gritam desesperadas, Rodrigo e Ruan tentam controlar a situação.

RODRIGO

      “Calma, gente! Calma! Nós vamos chamar a polícia!”

RUAN

      “Pode deixar que eu chamo, Rodrigo!”

              (Denise segura no pulso de Ruan)

DENISE

      “Não me deixa, amor! Por favor, não me deixa!”

OLINDA (Gritando)

      “Não tem uma ambulância nessa cidade! E a polícia? Cadê a polícia? Cadê essa polícia?”

RUAN

      “Gente, eu tenho que chamar a polícia...”

Cena 1.5

      Após serem assaltados por Metralha, os casais, Olinda e Dolores estão aterrorizados sem saberem o que fazer. Dolores a vista o Cabo Neves.

DOLORES

      “Eles chegaram!”

              (O Cabo Neves, portando uma pistola 45 chega á praça)

CABO NEVES

      “O que houve aqui?”

              (Todos vão ao policial e começam a falar ao mesmo tempo o que aconteceu. O Cabo Neves não sabe a quem dar atenção. O Sargento França, portando um fuzil M16, chega à praça e fica enojado com tamanho falatório)

SARGENTO FRANÇA

      “Cala boca! Todo mundo cala a boca!”

              (Todos fazem silencio)

SARGENTO FRANÇA

      “Ô Neves! Vamô olhá a vítima!”

              (Os policiais vão em direção ao corpo)

CABO NEVES

      “Com licença! Por gentileza, fiquem longe da vítima!”

              (Eles conferem o corpo de Eliomar. O Cabo Neves fica admirado ao reconhecer que é Rabiola, um ex. soldado do tráfico)

CABO NEVES

      “Ih... É o Rabiola, sargento!”

              (O Sargento França dá um breve sorriso de deboche)

SARGENTO FRANÇA

      “Ah... esse aí é figurinha repetida! Há um tempo atrás, essa praga tava trocando tiro com a gente! Tava com essa bíblia de baixo do braço só de fachada! Esse aí, morreu tarde! Cês deram sorte, dele não matar vocês!”

              (A pastora fica furiosa com as palavras do sargento)

OLINDA

      “Mais respeito com o filho de DEUS! A palavra DELE diz: Não julgueis, para que não sejais julgados!”

              (O Sargento França sorri de deboche)

CABO NEVES

      “Calma, minha senhora! Estamos aqui pra ajudar! Muita calma nessa hora!”

Cena 1.6

      Dolores conforta Olinda. Os casais estão isolados. O Sargento França está olhando com muito nojo para o corpo de Eliomar. Rodrigo vai até o Sargento França. O Cabo Neves vigia o corpo de Eliomar e ao mesmo tempo dá cobertura ao Sargento França.

RODRIGO

      “Sargento, eu posso falar com o senhor?”

SARGENTO FRANÇA

      “Fala, elemento!”

RODRIGO

      “É que nós chegamos de Cabo Frio agora...”

SARGENTO FRANÇA

      “Vocês todos?”

RUAN

      “Não...”

SARGENTO FRANÇA

      “Eu te perguntei alguma coisa? Cala a tua boca! Eu não tô falando contigo...”

RODRIGO

      “Não, sargento! Quem chegou foi elas duas, ele e eu! Nós fomos assaltados e perdemos o pouco que tínhamos. Agora não temos pra onde ir...”

SARGENTO FRANÇA

      “E você espera que eu faça o quê? Que eu pague uma diária pra vocês no Copacabana Palace? ...Escuta só, elemento! O que eu posso fazer por vocês é no máximo um boletim de ocorrências! Do mais, não é responsabilidade minha!”

RUAN

      “Por que o senhor não estava por aqui na hora do assalto?”

CABO NEVES

      “Olha como você fala, hein, rapaz! Tu é muito folgado! Se você falar mais alguma coisa, tu vai preso! Entendeu? Acho bom você ficar quietinho aí!”

SARGENTO FRANÇA

      “...E você acha que eu obrigado a estar em todo o lugar? Isso aí que vocês viveram agora, eu vivo todo o dia! Tá pensando o quê? O Rio é bonito, mas viver aqui, não é fácil, não!”

              (Rodrigo se vira para Luiza, Ruan e Denise)

RODRIGO

      “Vamos ir embora gente...”

SARGENTO FRANÇA

      “Ninguém vai ir embora! Eu não liberei ninguém! Enquanto eu não liberar, vai ficar todo mundo aqui!”

              (O Sargento França pega em mãos o seu rádio)

SARGENTO FRANÇA

      “Alfa? Aqui, delta! Na escuta? Informo que estarei levando o presunto para o necrotério agora! Informo que não vou esperar a ambulância! Repito, levarei o presunto pessoalmente ao necrotério! Copiado?”

              (Pelo rádio, a central copia a informação do Sargento França. Ele guarda o rádio)

SARGENTO FRANÇA

      “Senhoras e senhores, aqueles que foram assaltados, devem se dirigir a delegacia mais próxima para registrar o boletim de ocorrências! ...A senhorita fica! Os demais estão liberados!”

Cena 1.7

      Os policiais pegam com Olinda os dados de Eliomar. Os casais se reúnem e Dolores os observa.

LUIZA

      “E agora? Vamos fazer o B.O?”

RODRIGO

      “Não... a gente tá com a cabeça quente! A gente precisa arrumar um lugar pra ficar! Amanhã, com a cabeça mais fria, a gente faz!”

DENISE

      “Só se a gente dormir na rua! Por que pra onde nós vamos?”

              (Dolores vai até os casais)

DOLORES

      “Olha... eu tenho uma quitinete vazia lá no Morro do Querosene! Vocês podem ficar lá o tempo que precisarem! Eu não vou cobrar nada de vocês! Vocês querem ir?” (Os casais ficam maravilhados) RUAN “Claro!”

DOLORES

      “Então, me aguardem só um minuto!”

              (Dolores vai até à pastora Olinda)

DOLORES

      “Com licença, pastora! Eu vou levar os casais para minha quitinete! A senhora vai precisar que eu ajude em alguma coisa?”

OLINDA

      “Não! Pode ir! Eu vou acompanhar o corpo do Eliomar ao necrotério! Amanhã eu passo na comunidade!” 

              (Dolores volta até os casais)

DOLORES

      “Vamos!”

              (Os casais deixam a praça com Dolores. Os policiais também deixam o local carregando o corpo de Eliomar, a pastora os acompanha)

ATO II

Amanhecer. Quitinete de Dolores, local composto por um quarto e um banheiro. A quitinete é muito simples e humilde.

Cena 2.1

      Os casais estão dormindo na humilde quitinete de Dolores. Por volta das 5 da manhã, Rodrigo olha o relógio, se levanta e chama Ruan.

RODRIGO

      “Ruan, levanta! Já são cinco da manhã!”

RUAN

      “Calma, Rodrigo! Me deixa dormir, mais um pouco!”

RODRIGO

      “Não, Ruan! Levanta! A gente ainda tem que achar o lugar! Vamos Ruan levanta!”

              (Ruan levanta muito cansado)

RUAN

      “Nem dormi direito!”

RODRIGO

      “Se esqueceu que hoje é o dia tanto esperávamos?”

RUAN

      “A gente não pode se esquecer de fazer o B.O...”

RODRIGO

      “Tá! Mais, primeiro o nosso trabalho! Depois a gente faz o B.O! Agora vamos!”

              (Rodrigo e Ruan se despedem de Luiza e Denise, e deixam a quitinete)

Cena 2.2

      Após um breve tempo, Dolores entra na quitinete e acorda Luiza e Denise. Dolores trás consigo sanduíches, bolo e café.

DOLORES

      “Bom dia!”

              (Com muito sono, Luiza e Denise se levantam e dão bom dia)

DOLORES

      “Desculpe em acordar vocês tão cedo...”

LUIZA

      “O que é isso...”

DOLORES

      “Eu trouxe, sanduíches, bolo, café...”

DENISE

      “Não precisava se incomodar!”

DOLORES

      “Eu vi os rapazes passarem pela minha casa! Eles nem tomaram café, não é?”

DENISE

      “É... nossos namorados vieram ao Rio, para tentar vagas de trabalho, num lugar chamado...”

LUIZA

      “Méier!”

DENISE

      “É, Méier! E de lá talvez, eles façam o B.O!”

DOLORES

      “Eu tenho que ir trabalhar! Como eu falei, vocês podem ficar aqui na minha quitinete o tempo precisarem! Podem ficar despreocupados que eu não vou cobrar nada de vocês! Fiquem a vontade, tá?”

LUIZA

      “Tudo bem e muito obrigado! Qual é o seu nome?”

DOLORES

      “Dolores!”

DENISE

      “Que DEUS te abençoe, Dolores! Vai com DEUS!”

DOLORES

      “Se precisarem de alguma coisa, eu moro em frente à quadra do Taveira ou vocês podem ir á igreja, falar com a pastora Olinda! Tchau meninas, fiquem com DEUS!”

              (Dolores deixa a quitinete)

Cena 2.3

      Luiza e Denise estão sozinhas na quitinete de Dolores. Luiza e Denise degustam dos alimentos que Dolores trouxe como café da manhã para elas.

DENISE

      “Luiza, a morte daquele rapaz não sai da minha cabeça! Aquilo foi uma tremenda covardia!”

LUIZA

      “É, hoje em dia é assim... as pessoas matam, sem mais, nem menos...”

              (Bicudo, armado, invade a quitinete espancando Capixaba. Bicudo joga Capixaba no chão e aponta sua arma para Luiza e Denise que entram em pânico)

BICUDO

      “Nenhuma de vocês sai daqui! Se sair eu vou matar!”

              (Capixaba é espancado covardemente por Bicudo na frente de Luiza e Denise)

Cena 2.4

      Bicudo está espancando Capixaba na frente de Luiza e Denise, que estão chocadas. Marreta, revoltado e armado, invade a quitinete. Marreta observa Luiza e Denise. Ele fica muito furioso ao ver Bicudo espancando Capixaba.

MARRETA

      “O quê, que tu tá fazendo, Bicudo? Para com isso agora! Eu tô mandando, parar agora!”

              (Bicudo para de espancar Capixaba)

MARRETA

      “Tu tá espancando o cara com ordem de quem?”

BICUDO

      “Foi a Johnie, Marreta! Ela falou que perdeu a paciência com esse pela-saco e mandou espancá até a morte!”

MARRETA

      “O quê ele aprontou dessa vez?”

BICUDO

      “Essa peste, tava roubando uma coroa que tava saindo do banco! E o pior, Marreta! O cara não sabe nem roubar! Chegou na coroa com uma faca de cozinha! Aí os alemão pegaram e trouxeram pra Johnie! Ela não pensou duas vezes e mandou eu bater nele até morrer! E oh.. ela tava te procurando lá na diretoria! Onde é que tu tava?”

              (Marreta fica indignado com o abuso de Bicudo)

MARRETA

      “Pra que você quer saber? Não te devo satisfação da minha vida! Agora, some da minha frente, Bicudo! Vai ver como é que tá o movimento! Vão bora, Bicudo! Rala peito daqui!”

              (Bicudo deixa o local. Marreta se agacha diante de Capixaba)

MARRETA

      “Tu de mancada de novo... né, Capixaba?”

CAPIXABA

      “Foi à primeira vez, Marreta! Eu não vou mais fazer isso!”

MARRETA

      “Capixaba, você vai pegar esse seu traseiro imundo, e vai sumir com ele daqui do morro! Eu nunca mais eu quero ver tua cara! Entendeu, Capixaba?”

CAPIXABA

      “Me dá uma chance, Marreta! Por favor...”

MARRETA

      “Capixaba, eu já falei e não vou repetir, vaza!”

              (Capixaba se levanta e deixa à quitinete correndo. Marreta se levanta)

MARRETA

      “E vocês duas? Quem são vocês? Eu quero saber o quê, quê vocês duas tão fazendo aqui?”

DENISE

      “Moço, por favor! Não faz nada com a gente não! A gente não fez nada...”

MARRETA

      “Calma! Vocês querem ficar com calma! Eu não vou fazer nada com vocês! Eu só quero saber, quem são vocês duas?”

LUIZA

      “Moço, a gente só tá aqui de passagem! Nós chegamos com os nossos namorados de Cabo Frio! Eles saíram pra ver um trabalho e já devem estar chegando...”

MARRETA

      “Quando eles voltarem, eu aconselho vocês a arrumarem outro lugar pra ficar! Caso o contrário, vocês serão obrigados a conviver com essa violência no dia a dia de vocês! Aqui o coro-come! E isso que vocês viram agora, não é nada!”

             (Marreta deixa a quitinete. Luiza e Denise ficam chocadas)

Cena 2.5

      Rodrigo e Ruan retornam abatidos á quitinete. Luiza e Denise quando vêem seus namorados, os abraçam. Rodrigo e Ruan se sentam em lugares diferentes.

DENISE

      “Que cara é essa, hein... pelo visto já estou vendo que não deu certo!”

LUIZA

      “E aí? Vocês conseguiram? Por favor, sem brincadeira! Porque que o nosso dia já começou horrível! Como vocês foram lá?”

RODRIGO

      “Fomos mal...”

RUAN

      “Mal? Você não tem expressão pior do que essa não? Chegamos lá, o coroa ignorou a gente! Nós falamos que viemos de longe para ter esse emprego, mais sabe o que ele falou? O quê ele falou, Rodrigo?”

RODRIGO

      “Eu só lamento por vocês! As vagas foram preenchidas!”

              (Denise fica inconformada)

DENISE

      “Por quê, tá tudo dando errado pra gente, hein? Nós saímos de Cabo Frio numa boa, de cara nós fomos assaltados... agorinha mesmo aqui, me entra um cara sendo espancado...”

              (Os rapazes ficam impressionados)

RODRIGO

      “O quê?”

RUAN

       “Um cara sendo espancado?”

LUIZA

      “Foi horrível! A Denise e eu, estávamos aqui tomando café, quando dois caras entraram do nada! Um deles apontou uma arma pra gente, e nós entramos em pânico! Aí, um começou a espancar o outro! Depois entrou outro cara, e nos aconselhou a deixar esse lugar! É mentira, Denise?”

DENISE

      “Verdade!”

              (Rodrigo balança a cabeça negativamente)

DENISE

      “A gente pensando que esse trabalho ia dar certo, e deu no que deu... agora eu pergunto pra vocês! E agora? Me diz, e agora?”

              (Ruan medita)

RUAN

      “Uma vez quando eu era criança, a minha mãe me disse: filho, quando você for adulto, vai chegar um momento na sua vida, que você vai se encontrar em uma encruzilhada! Com quatro caminhos pra escolher! O primeiro caminho, é você voltar de onde saiu! O segundo, é o caminho difícil! Cheio de espinhos, sacrifício e muito trabalho! O terceiro, é o caminho fácil! Que você pode passar sem dificuldade nenhuma! E o quarto caminho, é o suicídio!”

              (Todos ficam em silêncio)

RODRIGO

      “Então quer dizer que nesse momento, nós estamos em uma encruzilhada com quatro caminhos para escolher?”

RUAN

      “Quatro caminhos uma escolha!”

              (Rodrigo medita)

RODRIGO

      “Quer saber, eu vou escolher o caminho difícil! Podem me chamar de: otário, idiota... eu sei que eu vou sofrer no caminho difícil! Mais eu tenho certeza, que lá na frente eu serei um vencedor!”

              (Luiza abraça Rodrigo)

LUIZA

      “Então somos dois! Porque eu estou com você nesse caminho difícil!”

DENISE

      “Dois não, três! Três não, quatro! Não é, Ruan?”

RUAN

      “Não! Eu vou escolher o caminho fácil!”

              (Rodrigo, Luiza e Denise acham graça)

RODRIGO

      “Fala sério, Ruan? Você vai escolher o caminho fácil?”

LUIZA

      “Imagina só, o Ruan... O bandido mais temido do Rio de Janeiro! Não, não! Para, Ruan! Para!”

              (Rodrigo, Luiza e Denise sorriem. Ruan fica furioso)

RUAN

      “Eu tô cansado de ser chamado de otário, idiota... pra ser sincero, eu tô cansado de ser certinho e quebrar a cara! Tem gente que escolhe o caminho fácil, e se dá muito bem!”

              (Rodrigo leva a sério as palavras de seu amigo)

RODRIGO

      “Que isso, Ruan? Nós dois crescemos juntos! Sempre aos trancos e barrancos a gente levou a vida! Olha que caminho você está escolhendo, hein...”

RUAN

      “Tudo dá errado pra gente, Rodrigo! A vida inteira a gente sofreu! Teu pai te abandonou antes de você nascer! A sua mãe tá lá em Cabo Frio, deitada em uma cama com câncer! Meu pai morreu de overdose! A minha mãe me abandonou! A minha vida inteira, eu nunca fiz coisa errada! E minha vida é só desgraça! Por isso nessa encruzilhada, eu vou escolher o caminho fácil!”

              (Denise não se conforma com a escolha de seu namorado)

DENISE

      “Ruan, olha pra mim! Diz que tudo isso é mentira! Diz que tudo isso é brincadeira! Pelo amor de Deus!”

RUAN

      “Denise, cala a boca! Quem escolhe o caminho que eu quero seguir sou eu!”

              (O clima fica muito tenso)

RODRIGO

      “A pastora Olinda, convidou a gente pra almoçar! Vamos?”

LUIZA

      “Mesmo! Eu estou morrendo de fome!”

              (Rodrigo, Luiza e Denise vão em direção á saída da quitinete e Ruan permanece no local)

DENISE

      “Você não vai almoçar, Ruan?”

RUAN

      “Não tô com fome!”

DENISE

      “Vem almoçar, Ruan...”

RUAN

      “Denise, me deixa em paz, por favor!”

RODRIGO

      “Vamos, Denise! O Ruan não vem!”

              (Rodrigo, Luiza e Denise deixam a quitinete. Ruan fica pensativo e após um tempo, também deixa o local)

ATO III

Tarde. Em uma laje, ponto alto do morro do Querosene. Reduto dos bandidos e ponto de venda de drogas. Na laje há um precipício, que possui uma vista maravilhosa da cidade do Rio de Jeneiro.

Cena 3.1

      Torresmo, portando um fuzil AK-47, admira um fuzil calibre 762. Revoltado e armado, Bicudo chega ao local.

TORRESMO

      “Qual foi, Bicudo? Tá bolado?”

BICUDO

      “Na moral, neguinho! Já tô de saco cheio do Marreta! O cara vive pegando no meu pé...”

TORRESMO

      “Tu tem que batê de frente, parceiro! Se tu não batê de frente, ele vai sempre esculachar! Vê se ele se mete comigo? Comigo a chapa esquenta! Mais pra tu se alegrá, toma esse fuzil pra tu!”

              (Torresmo passa o fuzil calibre 762 á Bicudo)

BICUDO

      “Valeu, braço!”

              (Tenso, Ruan chega ao local e é observado pelos bandidos)

TORRESMO

      “Qual foi, cidadão?”

RUAN (Tenso)

      “Aí, irmão! Eu quero falar com o dono morro!”

TORRESMO

       “Tu tá pensando que é assim? Tu chega do nada aqui na boca e quer falar com o dono morro... não é assim, que a coisa funciona aqui não! Primeiro você desenrola comigo! Depois com o Dono do Morro! Entendeu?”

BICUDO

      “Eu sou o dono do morro! O quê, que tu quer?”

RUAN

      “Eu não vim aqui pra falar com sardinha! Eu vim aqui pra falar com o tubarão...”

              (Bicudo dá uma coronhada com seu fuzil em Ruan, o mesmo cai no chão e é chutado pelos bandidos)

BICUDO

      “Repete o que tu falou! Repete! Eu tô doido pra dá um tiro com o meu fuzil novinho na tua boca!”

TORRESMO

      “Vamo apagar ele, Bicudo!”

               (Torresmo e Bicudo se preparam para matar Ruan)

Cena 3.2

      Bicudo e Torresmo estão com suas armas apontadas para Ruan. Armados, Johnie e Marreta chegam à laje.

JOHNIE

      “Com ordem de quem vocês vão matar o cara? Só quem manda matar aqui é eu! Se vocês matarem alguém aqui, sem a minha ordem, eu mato vocês dois!”

              (Torresmo e Bicudo ficam calmos. Ruan se levanta)

JOHNIE

      “Quem é tu? O que tu faz aqui?”

RUAN

      “Eu sou o Ruan! Eu vim de Cabo Frio com a minha namorada, pra ver um emprego aqui no Rio, só que o coroa me deu um calote! Pra completar, a gente foi assaltado e só tamô com a roupa do corpo! Aí eu, decidi vir aqui, pra fechar com vocês!”

      (Os bandidos sorriem de Ruan)

JOHNIE

      “Só porque não conseguiu arrumar um emprego honesto, o cara sobe no meu morro, pedindo pra fechar comigo! Essa é muito boa!”

RUAN

      “Eu tenho experiência nessa vida! Já roubei, já matei, tenho intimidade com armamento! Se eu fechar com vocês, eu não vou decepcionar!”

JOHNIE

      “E aí, Marreta? O quê, que tu diz?”

MARRETA

      “Ó, Johnie! A gente nunca viu esse cara aqui no morro! Sabe lá, quem é? De repente ele é de outra facção e tá querendo a tua confiança, pra depois te matar e ficar no teu lugar! Eu vi a namorada dele lá embaixo! Ela me contou a mesma história! Eu não acredito neles não! Na moral, Johnie! É melhor você despachar esse cara e a namorada dele daqui do morro!”

JOHNIE

      “Chega aí, Marreta!”

              (Johnie vai para um canto da laje com Marreta e conversa com ele em off. Após a conversa, Johnie vai até o precipício da laje)

JOHNIE

      “Vem aqui, Guerreiro!”

              (Johnie e Ruan ficam diante do precipício)

JOHNIE

      “Você faria qualquer coisa, pra fazer parte da minha facção?”

              (Ruan medita)

RUAN

      “Faria! Eu faria qualquer coisa!”

JOHNIE

      “Pra você fazer parte da minha facção, você vai ter que matar um policial, e trazer a identidade militar dele suja de sangue, aqui na minha mão! E aí, tu topa?”

RUAN (Sorrindo)

      “Claro! Isso pra mim não é nada!”

JOHNIE

      “Você tá rindo de quê? Eu sou dentista por acaso? Você não tem muito tempo não! Vai! Se adianta, mané! Some da minha frente!”

              (Ruan deixa o local)

Cena 3.3

      Torresmo e Bicudo conversam em off. Marreta vai até Johnie.

MARRETA

      “Na moral... não vou com a cara desse maluco! E, ó! Não senti firmeza no que ele falou não, hein! Essa história dele, tá muito mal contada! Eu acho que esse cara, tá querendo te enrolar... se eu fosse você, mandava esse cara sumir daqui do morro! Se liga no papo que eu tô ti dando, hein...”

JOHNIE

      “Qual foi, Marreta? Tu não vai com a cara de ninguém, hein! Vamo da uma chance pro cara! Tá vendo que ele e a namorada tão no fundo do poço! Vamo ajudar a cara! Aí, vamo descer lá no Taveira, tomar uma loirinha, fumar um café...”

TORRESMO

      “Sem esquecer do açúcar...”

JOHNIE

      “Claro! Eu quero ficar doidona pro baile de logo mais! Aí, Bicudo! Manda geral ficar na atividade, hein!”

BICUDO

      “Xá cum nós, chefia! Xá cum nós!”

              (Johnie deixa a laje acompanhada por Marreta e Torresmo. Bicudo deixa o local sozinho)

ATO IV

Morro do Querosene, à tarde, quitinete de Dolores.

Cena 4.1

      Rodrigo, Luiza e Denise chegam á quitinete muito chateados.

RODRIGO

      “É, não é fácil! Esse caminho difícil não é fácil! Eu não entendo, por que tudo dá errado pra mim?”

LUIZA

      “Amor, nós estamos sofrendo agora, mas temos que crer em DEUS! Temos que crer que tudo vai dar certo e que DEUS irá fazer justiça!”

DENISE

      “Sim, DEUS fará justiça!”

RODRIGO

      “É como diz o ditado: A justiça de DEUS tarda, mais não falha!”

Cena 4.2

      Alguém bate a porta de entrada da quitinete. Luiza e Denise ficam apreensivas.

DENISE

      “Quem deve ser?”

RODRIGO

      “Isso é o que vamos ver!”

              (Alguém bate a porta novamente e Rodrigo vai até ela)

LUIZA

      “Amor, cuidado...”

              (Do lado de fora da quitinete...)

OLINDA

      “Sou eu, a pastora Olinda!”

              (Do lado de dentro...)

RODRIGO

      “É a pastora Olinda!”

              (Luiza e Denise ficam tranqüilas. Rodrigo abre a porta e se depara com Olinda)

OLINDA

      “Oi, pessoal!”

              (Rodrigo, Luiza e Denise recepcionam a pastora)

Cena 4.3

      Rodrigo, Luiza e Denise estão sentados e a pastora Olinda também.

OLINDA

      “Eu trago boas notícias! Em especial pra você, Rodrigo! Eu liguei pro meu irmão, contei e a sua situação. Ele disse pra eu levar você ao Palácio Guanabara! Lá, você vai fazer um teste para trabalhar com Relações Públicas! É um excelente trabalho! Caso você passe no teste, o trabalho é seu!”

              (Rodrigo fica maravilhado)

RODRIGO

      “Muito obrigado, pastora! Que DEUS te abençoe!”

LUIZA

      “Esse trabalho é seu, amor! Eu tenho certeza!”

              (Luiza abraça Rodrigo e lhe dá um beijo)

RODRIGO

      “Com certeza, amor! Com certeza! A senhora me passa o endereço, porque eu vou agora!”

OLINDA 

      “Um dos irmãos da igreja, me emprestou sua Kombi! Eu lhe dou uma carona!”

RODRIGO

      “Então vamos!”

              (Todos se levantam)

LUIZA

      “Nós podemos ir?

OLINDA

      “Claro! Não é bom vocês ficarem sozinhas aqui! Vamos”

              (Olinda deixa a quitinete com Rodrigo, Luiza e Denise)

ATO V

      Madrugada, na praça deserta e sombria, próximo a rodoviária Novo Rio. Mesmo local, na qual, Rodrigo, Luiza, Ruan, Denise, Olinda e Dolores foram assaltados e Eliomar foi morto.

Cena 5.1

      O Sargento França, portando um fuzil M16 e o Cabo Neves, portando uma pistola 45, então caminhando pela praça fazendo a patrulha.

SARGENTO FRANÇA

      “Aí, cara... Quando eu fico de serviço eu fico boladão! Ainda bem que eu só pego patrulha contigo!"

CABO NEVES

      “É...”

              (O sargento e o cabo param e ficam sem assunto para conversar por um tempo)

SARGENTO FRANÇA

      “Aí, Neves! Desculpa te perguntar... você ainda tá no queijo?”

              (O cabo se sente constrangido com a pergunta do sargento)

CABO NEVES

      “Que isso, sargento! O senhor sabe como é né... eu não tenho tempo nem pra mim! Que dirá pra essas coisas...”

SARGENTO FRANÇA 

      “Tá na hora de você colocar esse polenguinho pra fora, cara...”

CABO NEVES

      “O que é isso, sargento...”

SARGENTO FRANÇA

      “Serio, rapaz! ...Olha só! Eu marquei com duas loirinhas, ma-ra-vi-lho-sas! As duas moram sozinhas e são cheias de fogo... Eu posso dividir uma com você! É aqui pertinho! Vamo bora?”

CABO NEVES

      “E quem vai ficar na patrulha, sargento? O Rabiola morreu aqui ontem, aquele pessoal foi assaltado, quase todo o dia aqui o bicho pega... e o Coronel mandou a gente ficar esperto, Sargento!”

SARGENTO FRANÇA

      “Rapaz, eu tô cagando e andando pro Coronel! Não é ele que fica subindo morro pra cima e pra baixo trocando tiro com bandido! Não é ele que fica aqui na patrulha com a gente! Eu sou policial mais não sou de ferro! Tenho direito de curtir uma mulherzinha, tomar uma cervejinha, dançar minha gafieira... e quanto a esse lugar... isso aqui já tá entregue aos vermes há muito tempo! Agora tu vem, ou não vem?”

CABO NEVES

      “Não, sargento! O senhor pode ir sozinho! Pode deixar que eu fico na patrulha!”

SARGENTO FRANÇA

      “Beleza! Já que você não quer, eu vou ficar com duas loirinhas só pra mim! Mas, ó, rapaz! Não vai me queimar pro Coronel, não, hein... se o rádio me chamar, inventa um caô, aí!"

              (O sargento vai rumo ao seu destino quando no meio do caminho se lembra de algo)

SARGENTO FRANÇA

      “Ah... pra você não ficar, sem fazer nada...”

              (O Sargento França tira de sua farda uma revista masculina e entrega ao Cabo Neves)

CABO NEVES

      “Que isso, sargento?”

SARGENTO FRANÇA

      “É uma revista masculina pra você! Depois você entra lá na viatura e dá uma espancada no macaco!”

              (O Cabo Neve fica abismado)

CABO NEVES

      “Eu não quero isso não! Toma, pode levar!”

SARGENTO FRANÇA

      “Ih... tô começando a desconfiar, que você não gosta de mulher!”

CABO NEVES

      “É claro que eu gosto de mulher!”

SARGENTO FRANÇA

      “Eu já coloquei varias mulheres na tua fita e você sempre arruma um jeito de fugir! Tô ti dando uma revista, você não quer! Posso te perguntar uma coisa?”

CABO NEVES

      “Pode!”

SARGENTO FRANÇA

      “Tu é gay, Neves?”

CABO NEVES

      “Ih... sai fora, sargento! Eu não sou gay, não...”

              (O Sargento França fica irado)

SARGENTO FRANÇA

      “Ah... Se você é gay ou não, isso é problema seu! Eu vou brincar com as loirinhas! Fui!”

              (O Sargento França deixa a presença do Cabo Neves)

CABO NEVES

      “A revista do senhor, sargento... Sargento, a revista...”

              (O Sargento França deixa a praça e o Cabo Neves fica sozinho na patrulha com a revista na mão)

Cena 5.2

      O Cabo Neves está sozinho na patrulha com a revista masculina na mão. Ele olha a capa da revista e balança a cabeça negativamente. Neves rasga a revista e a joga na lixeira. Após um tempo, ele olha para os lados, tira de sua farda uma revista gay, a admira as fotos do conteúdo da revista e acaricia o seu corpo. Com a pistola em seu coldre, o cabo fica totalmente distraído, quando Ruan, por trás, tira a pistola de seu coldre e o rende.

RUAN

      “De joelhos! De joelhos!”

              (O cabo larga a revista e fica de joelhos)

RUAN

      “Cadê aquele sargento? Fala agora senão eu te mato!”

CABO NEVES

      “Eu não sei, cara! Eu não sei...”

              (Ruan agride o cabo que em seguida, cai no chão. Ruan pega o Cabo Neves, o rende e coloca a pistola na cabeça do cabo)

RUAN

      “Eu vou contar até três! Se você não falar eu vou te matar!”

CABO NEVES

      “Tá bom, tá bom... ele foi à casa de duas mulheres aqui perto!”

RUAN

      “Onde?”

CABO NEVES

      “A casa de duas mulheres, aqui perto!”

RUAN

      “Desgraçado!"

              (Ruan atira com a pistola na cabeça do Cabo Neves, mas a arma não funciona)

RUAN

      “Droga... não funciona...”

CABO NEVES

      “Tá descarregada, miserável!”

              (Ruan joga o Cabo Neves no chão. O Cabo Neves sai correndo, Ruan carrega rapidamente a pistola e atira no cabo, que cai no chão agonizando. Ruan vai até o corpo do Cabo Neves e coloca uma das solas dos pés, no peito dele)

CABO NEVES

      “Vai me matar?”

RUAN

      “Eu necessito, te matar!”

              (Ruan dá tiros no Cabo Neves, que morre. Ruan fica desesperando)

RUAN

      “Identidade militar! Cadê a identidade militar!”

              (Ruan procura na farda do cabo a identidade militar e a encontra)

RUAN

       “Achei! Agora tem que sujar ela de sangue!”

              (Rapidamente, Ruan suja a identidade militar com o sangue do cabo. Ruan cata a revista gay do chão, a coloca na farda do cabo e esconde o corpo atrás de um banco da praça. Ruan deixa o local)

ATO VI

Tarde. Laje, ponto alto do morro do Querosene.

Cena 6.1

      A laje está vazia e sem movimento. Marreta chega ao local e vai até o precipício. Ele pega o seu celular e nele faz uma ligação. O número do telefone que ele ligou chama, após um curtíssimo tempo alguém atende.

MARRETA

      “E aí? Vai rolar? ...Não? Mais você prometeu! Olha, eu já tô cansado de você ficar me enrolando! Hum... sei...”

              (Jonhie chega ao local com um jornal nas mãos. Ela se senta em sua poltrona e lê o jornal. Marreta continua falando ao seu celular, só que agora em off)

JOHNIE (Lendo o jornal)

      “Esses alemão, já fizeram de tudo pra me pegar! Só que o dia que eles me pegarem, o Sargento Garcia vai prender o Zorro!”

              (Ruan, portando a pistola 45 do Cabo Neves, chega á laje)

JOHNIE

      “Olha só quem chegou! O coitadinho de Cabo Frio! E aí? Tu fez o que eu te mandei?”

              (Ruan entrega a identidade militar suja de sangue nas mãos de Johnie)

JOHNIE

      “Caramba! Toda suja de sangue! Tu é bom mermo, hein...”

              (Johnie olha bem para a identidade)

JOHNIE

      “Espera aí! ...Esse pela-saco quase me matou né, Marreta? Marreta! Ô Marreta!”

              (Marreta continua falando ao celular)

MARRETA

      “Você sabe que eu te quero, mais do que tudo nesse mundo!”

JOHNIE

      “Como é que é, Marreta? Vai ficar de neurose?!”

MARRETA (Falando ao celular)

      “Hoje! Tá beleza! Um beijo, Tchau!”

              (Marreta desliga o celular e vai á Johnie)

MARRETA

      “Foi mal, Johnie!”

JOHNIE

      “Caraca, Maluco! Tô querendo falar uma parada contigo, e tu não responde! Volte e meia, tu tá falando nesse celular! Tu tava falando com quem, Marreta?”

MARRETA

      “Sabe aquela morena maravilhosa, que eu tô pegando?”

JOHNIE

      “Qual?”

MARRETA

      “Aquela que eu tava ontem no baile! Ela tá me ligando toda hora! Eu tô apaixonado, Johnie! Tô doidinho pra ver ela...”

JOHNIE

      “Que eu me lembre ontem no baile, te vi agarrado com uma loira, hein, Marreta... eu acho que é aquela que vem lá do Vidigal...”

MARRETA

      “Qual foi, Johnie? Ontem tu tava chapadona que tu não viu nada! Pode perguntar pra geral! Minha mina, é uma morena lá do Leme!

JOHNIE

      “Tô ligada, Marreta! Fiz isso só pra te testar... se tem alguém, que eu boto fé, esse alguém é você! Eu sei, que tu é um cara, que nunca vai vacilar comigo! Tu é meu fiel de verdade, Marreta!”

MARRETA

      “É nós, Johnie! É nós!”

RUAN

      “E como fica a minha situação?”

MARRETA

      “Tu fez o que ela mandou?”

RUAN

      “Fiz...”

MARRETA

      “Deixa eu ver, Johnie!”

              (Johnie entrega a identidade militar a Marreta. Ele a olha bem)

MARRETA

      “Caramba... é o Neves! Esse desgraçado quase te matou, Johnie! Tu lembra dele?”

JOHNIE

      “Lembro! Foi naquele dia que os alemão brotaram do nada... eu quase perdi a minha vida, por causa desse miserável! Aí, de Cabo Frio! Tu mandou bem pra dedéu, hein! Pode ficar tranqüilo, que agora eu vou te fortalecer! O que tu precisar, tu pode contar comigo! Só que tudo o que tu for pensar em fazer aqui no morro, tu fala comigo! Entendeu, mané?”

RUAN

      “Entendi! Entendi...”

Cena 6.2

      Bicudo chega à laje espancando Metralha, que está amarrado e ensangüentado. Bicudo joga o assaltante na frente de Johnie, que revoltada se levanta de sua poltrona.

JOHNIE

      “O quê, que essa praga, tá fazendo aqui, Bicudo?”

BICUDO

      “Chefia, tava estrupando uma novinha lá no Taveira! A mina ficou toda machucada! A novinha gritando: Para! Para! Para! E esse comédia não parava! Geral ouviu e fechou em cima dele! E agora? O que nós faz, Chefia?”

JOHNIE

      “Maior vacilação, hein, Pedro! Te fortaleço pra caramba, e você me sacaneia pra caramba! Aí, bandidinho de asfalto, é fogo!”

METRALHA

      “Te juro que não piso mais meus pés aqui nesse morro, Johnie! Te juro!”

JOHNIE

      “Pau que nasce torto, nunca se endireita! Se eu livrar a tua cara hoje, amanhã tu vai tá subindo aqui de novo e vai estrupar outra novinha! Aí, Pedro! A gente vai te enterrar, por aqui mermo!”

RUAN

      “Caramba, que mundo pequeno, hein? Você se esqueceu de mim? Lembra daquele assalto na praça, perto da rodoviária... eu perdi tudo por sua culpa!”

              (Ruan dá chutes em Metralha)

JOHNIE

      “Ah... então quer dizer que foi você, que assaltou o parceiro aqui, né?”

METRALHA

      “É mentira, Johnie! Eu nunca vi esse cara! Qual é, Johnie? Tu vai acreditar no cara? Pó, Marreta? Me tira dessa cara! Não me deixa morrer, não! Qual é, Marreta?”

MARRETA

      “Tu tem que, tomar vergonha na cara, Metralha! Você não tem necessidade de ficar fazendo isso!”

JOHNIE

      “Pedro, qual é o nome desse Morro?”

METRALHA

      “O nome desse Morro?!”

JOHNIE

      “Qual é o nome desse Morro?!”

METRALHA

      “Mais como assim... o nome desse Morro?!”

              (Marreta dá chutes em Metralha)

MARRETA

      “Qual o nome desse Morro, Metralha?!”

METRALHA

      “Querosene! Querosene! Morro do Querosene!”

JOHNIE

      “De Cabo Frio! Vai com o Bicudo, pegar o que ele falou!”

BICUDO

      “Chega aí, braço!”

              (Ruan e Bicudo vão pegar o querosene)

METRALHA

      “Querosene? Querosene! Não, Johnie! Querosene, não! Por favor, Johnie!”

Cena 6.3

      Johnie e Marreta estão de pé, Metralha está diante deles, amarrado e ensangüentado. Metralha está agoniado. Ruan e Bicudo chegam, cada um com um galão de querosene.

JOHNIE

      “Joga querosene nele!”

              (Ruan e Bicudo jogam todo o querosene em Metralha, que por sua vez, grita muito. Johnie tira de seu bolso uma caixa de fósforos e entrega a Ruan)

JOHNIE

      “Taca fogo nele!”

              (Ruan fica pensativo com a caixa de fósforos na mão)

JOHNIE

      “Taca fogo nele! Pode tacar! Eu tô mandando!”

              (Ruan tira um palito da caixa e o risca, imediatamente Marreta vai até Ruan e apaga o fósforo, Johnie fica muito furiosa)

JOHNIE

      “Qual foi, Marreta? Tá de sacanagem?”

MARRETA

      “Johnie, não vale a pena...”

JOHNIE

      “Tá com peninha do cara? Vai! Taca fogo nesse miserável...”

MARRETA

      “Pó, Johnie! Pensa na mãe da cara? Ela vai ficar desesperada quando souber que o filho dela desapareceu! Com certeza vai ter um X9, que vai explanar a parada! Aí, a chapa vai esquentar! Vai ter alemão pra caramba, subindo o Morro atrás do corpo! Depois não vai dizer, que eu não te avisei!”

              (Johnie fica pensativa)

JOHNIE

      “Sempre pensando nas conseqüências né, Marreta? Escuta só, Pedro! Se eu te ver aqui no morro, mais uma vez, eu juro diante de DEUS, que eu te queimo vivo! Entendeu?”

METRALHA

      “Já é, Johnie! Já é! Tu nunca mais, vai me ver na tua vida!”

              (Bicudo segura os galões vazios que continham querosene)

MARRETA

      “E trate, de parar de assaltar, hein, rapaz!”

JOHNIE

      “...De Cabo Frio, espanca ele! Depois solta ele lá em baixo! Não é pra matar, não! É pra bater, hein, mané!”

RUAN

      “Já é!”

              (Furioso, Ruan pega Metralha do chão e deixa a laje levando o assaltante)

JOHNIE

      “Bicudo, se adianta!”

              (Bicudo deixa o local levando os galões)

JOHNIE

      “Marreta! Vamo lá no Taveira ver o que aconteceu!”

              (Johnie deixa a laje com Marreta)

ATO VII

Noite. Quitinete de Dolores.

Cena 7.1

      Denise chega abatida á quitinete, ela se senta e reflete sobre a vida. Após um tempo, Rodrigo e Luiza chegam ao local, felizes e abraçados. Rodrigo trás nas mãos uma garrafa de champanhe e taças. Denise se levanta para recebê-los.

DENISE

      “Rodrigo! Luiza!”

RODRIGO

      “Ah, Deus é muito maravilhoso! Denise, eu consegui!”

DENISE

      “Mesmo! Meus parabéns, Rodrigo! Você merece!”

              (Denise abraça Rodrigo)

RODRIGO

      “Obrigado, Denise!”

LUIZA

      “Parabéns, meu amor! Valeu a pena todo esse sacrifício, não é verdade?”

              (Luiza beija Rodrigo)

RODRIGO

      “Com certeza! O sacrifício é o preço do caminho difícil! E eu estou tão feliz, que eu comprei uma garrafa de champanhe, para nós brindarmos esse momento tão especial!”

              (Rodrigo abre a garrafa de champanhe e serve a Luiza e Denise nas taças)

RODRIGO

      “Um brinde a vitória!”

              (Todos brindam as taças)

RODRIGO, LUIZA E DENISE

      “Saúde!”

              (Eles tomam champanhe, respectivamente)

Cena 7.2

      Rodrigo, Luiza e Denise estão felizes e comemorando, tomando champanhe, respectivamente. Ruan, revoltado e com um cheiro muito forte de querosene, entra na quitinete.

RUAN

      “É... a coisa tá boa, né? Que amigos são vocês, hein... nem me convidaram pra festa!”

RODRIGO

      “Ruan, onde você estava, rapaz? Você sai, não fala pra onde vai! deixa a gente preocupado com você...”

RUAN

      “Vocês aqui tomando champanhe, tão preocupado comigo? É ruim, hein...”

              (Luiza sente em Ruan um cheiro de querosene)

LUIZA

      “Ruan, você tá com cheiro forte de querosene! Você estava onde?”

RUAN

      “Não te interessa!”

              (Luiza fica revoltada com tamanha estupidez de Ruan)

LUIZA

      “Caramba, Ruan! Parece que depois que você veio pra cá, você ficou azedo! Eu não tenho culpa dos seus problemas não...”

RODRIGO

      “Calma, Luiza! Calma...”

LUIZA

      “Rodrigo, a gente não pode falar nada com ele, que ele responde desse jeito! Ainda bem, que nós vamos embora!”

RUAN

      “Embora? Vocês vão pra onde?”

RODRIGO

      “Nós vamos ficar em um hotel baratinho, até arrumar uma casa!”

RUAN

      “Com que dinheiro?”

RODRIGO

      “A pastora Olinda, me indicou para fazer um teste com o irmão dela, que trabalha no Palácio Guanabara.”

RUAN

      “Teste de que?”

RODRIGO

      “Pra trabalhar no setor de relações públicas! Fiz o teste, passei e expliquei a minha situação. Eles me deram um vale de 500 reais e amanhã mesmo, já vou começar a trabalhar!”

RUAN

      “É mermo! E quê, vocês tão esperando pra meter o pé?”

              (Rodrigo fica indignado com Ruan)

RODRIGO

      “Quem te viu quem te vê, hein, Ruan...”

              (Ruan parte pra cima de Rodrigo e os dois ameaçam brigar. Luiza entra na frente de Rodrigo e Denise na frente de Ruan. Elas tentam acalmar seus namorados)

RUAN

      “Não se mete na minha vida, não! Não se mete, não!”

DENISE

      “Gente, me deixa conversar a sós com o Ruan, por favor!”

LUIZA

      “Vem, Rodrigo! Vamos sair! Vem, Rodrigo...”

              (Rodrigo e Luiza deixam a quitinete)

Cena 7.3

      Ruan e Denise estão a sós na quitinete. Denise se senta. Ruan continua de pé e fica muito nervoso.

DENISE

      “Ruan, por favor... você pode se sentar, pra gente conversar...”

              (Ruan se senta)

DENISE

      “Por que, você tá agindo desse jeito com a gente, Ruan? Depois que aquele trabalho não deu certo você é outra pessoa! O quê, que tá acontecendo?”

RUAN

      “Eu tava cansado, daquela porcaria de vida que a gente levava! Eu nunca tenho o que eu quero! Eu quero comprar uma moto, não tenho dinheiro! Eu quero comprar um tênis de marca, não tenho dinheiro! Eu quero comprar um cordão de ouro, não tenho dinheiro! É por isso que eu tô no caminho fácil! Assim eu não vou precisar me matar, pra ganhar salário mínimo, e não ter aquilo que eu quero!”

DENISE

      “Como você é cabeça dura, hein, Ruan... você não está careca de saber, que tudo o que vem fácil vai fácil! Você já viu muitos exemplos de pessoas que perderam a vida porque escolheram o caminho fácil! É melhor você abrir os seus olhos, antes que seja tarde...”

RUAN

      “Se eu morrer, amanhã vai entrar outro pior ou melhor do que eu! Eu reconheço que sou cabeça dura, Denise! E se eu morrer, eu vou morrer ciente que geral me deu conselho!”

              (Denise fica muito triste com o seu namorado)

DENISE

      “Ruan, você não é assim! Eu te amo! Eu quero construir uma família contigo!”

RUAN

      “Você sabe o que eu quero?”

DENISE

      “O quê?”

RUAN

      “Eu quero ser o dono desse Morro!”

DENISE

      “Você mal chegou e quer ser o dono do morro? Ah, não... ele pirou de vez!”

              (Ruan se levanta)

RUAN

      “Você sabe quem é o dono do morro? O dono não, a dona do morro?”

DENISE

      “Quem?”

RUAN

      “Uma mulher! Você acha que eu vou ficar aqui nesse morro, obedecendo às ordens de uma mulher? Fala sério né, Denise? Eu vou matar ela e um tal de Marreta! E eu que vou ser o dono desse Morro!”

              (Denise se levanta)

DENISE

      “Ruan, eu vou lhe dar a última chance! Se você me ama de verdade, você vai me pedir perdão por tudo o que você fez, e nós vamos sai daqui desse lugar com o Rodrigo e a Luiza! Agora, se você quer continuar no caminho fácil, você vai seguir a sua vida que eu vou seguir a minha!”

              (Ruan fica pensativo)

RUAN

      “Eu vou continuar no caminho fácil! E você vai vir comigo, porque você é a mulher da minha vida!”

DENISE

      “Não! Desse jeito não, Ruan!”

RUAN

      “Por quê?”

DENISE

      “Porque não foi isso que nós planejamos! Você falava que queria me fazer feliz, construir uma família linda, ter um bom trabalho... e diante de uma encruzilhada, você quer escolher o caminho fácil?”

RUAN

      “As coisas mudaram, Denise! Eu escolhi o caminho fácil! E vou continuar nele até o fim!”

DENISE

      “Então você vai continuar nele sozinho! Porque eu estou voltando para Cabo Frio! Adeus, Ruan!”

              (Denise deixa a quitinete)

RUAN

      “Denise, volta aqui! Denise! Denise!”

              (Ruan se revolta e deixa local)

ATO VIII

Madrugada. Laje, ponto alto do morro do Querosene.

Cena 8.1

      Johnie, Marreta, Bicudo e Torresmo, estão no local, todos armados. Está rolando um funk, e os bandidos estão cheirando cocaína, respectivamente, exceto Marreta, que toma um energético e envia torpedos em seu celular. Johnie está sentada em sua poltrona e está com uma arma de pequeno porte, nas mãos.

JOHNIE

      “Qual é, Marreta... vem chêrá, pó...”

MARRETA

      “Não, valeu... eu tô de boa!”

              (Johnie sorri)

BICUDO

      “O Marreta é da geração saúde, chefia!”

              (Johnie, Bicudo e Torresmo sorriem)

TORRESMO

      “É... eu não sei se é o pó que tem medo dele, ou se é ele que tem medo do pó!”

MARRETA

      “Eu não sei se é a morte que tem medo de você, o se é você que tem medo da morte!”

              (Torresmo olha com ódio para Marreta)

JOHNIE

      “Tá fazendo o quê, nesse celular, Marreta?”

MARRETA

      “Pô, Johnie... minha mina! Ela não atende o celular, aí eu tô enviando um monte de torpedo pra ela...” 

              (Bicudo e Torresmo continuam a cheirar cocaína, respectivamente. Johnie acende e fuma um baseado de maconha)

JOHNIE

      “É um Marreta apaixonado...”

              (Todos sorriem)

TORRESMO

      “Pô, tinha que rolar um baile hoje, chefia!”

JOHNIE

      “Eu até pensei nisso, mas hoje, os alemão invadiram o Morro da Vassoura!”

              (Bicudo fica surpreso)

BICUDO

      “É mermo, chefia?”

JOHNIE

      “É... por isso é bom nessa madrugada, a gente ficar na atividade! Como é que tá a segurança, Bicudo?”

BICUDO

      “Tá na moral, chefia! Na moral... Tá geral na atividade!”

JOHNIE

      “Já é...”

              (Johnie fuma seu baseado de maconha. Torresmo e Bicudo continuam cheirando cocaína, respectivamente. Marreta, guarda o seu celular e pega outro energético para tomar)

Cena 8.2

      Suado e muito nervoso, Ruan chega ao local. Ruan está portando uma pistola 45.

RUAN

      “E aí?!”

              (Ruan coloca a pistola 45 na cintura e cumprimenta os bandidos)

JOHNIE

      “Qual é?”

TORRESMO

      “Fala aí, cidadão!”

BICUDO

      “E aí? Beleza?”

              (Marreta, não cumprimenta Ruan direito)

MARRETA

      “E aí?”

BICUDO

      “Aí, maluco... pode ficar a vontade aí! Tá regadão!”

RUAN

      “Beleza, mas eu não tô afim, não...”

              (Johnie, Bicudo e Torresmo sorriem. Marreta dá um breve sorriso)

TORRESMO

      “Qual é cidadão? Tu não chegado, não?”

RUAN

      “É que eu...”

              (Johnie se levanta de sua poltrona, coloca sua arma na cintura e coloca uma das mãos no ombro de Ruan) 

JOHNIE

      “Ele também é dá geração saúde!”

              (Johnie, Bicudo e Torresmo sorriem. Marreta fica sério e se desfaz de se energético. Ruan agarra Johnie, e a rende com a arma dela. Bicudo e Torresmo não entendem nada, pegam suas arma e a apontam para Ruan. Marreta também pega sua arma e a aponta para Ruan)

JOHNIE

      “Tá de brincadeira com a minha caxóla, comédia!”

RUAN

      “Cala a boca!”

JOHNIE

      “Pode quebrar ele, Marreta! Quebra ele, Bicudo! Vai ficar de neurose, Torresmo! Quebra ele!”

RUAN

      “Eu não acredito que vocês vão obedecer às ordens de uma mulher! Desde quando uma mulher manda na gente! Nós somos homens! Deus fez primeiro o homem, depois a mulher! Elas que tem que obedecer à gente! Até quando vocês vão aceitar ser capacho da Johnie? Esse morro te que ser nosso! Agora é com vocês! Cês tão comigo, ou com ela?”

              (Marreta, Bicudo e Torresmo se olham)

TORRESMO

      “Já é, parceiro!”

BICUDO

      “Tá ligado!”

MARRETA

      “É nós! É nós!”

              (Ruan joga Johnie no chão. Bicudo e Torresmo apontam suas armas para Johnie. Marreta aponta sua arma para Ruan, que por sua vez aponta sua arma para Marreta)

MARRETA

      “Eu te falei, Johnie! Se você tivesse me ouvido, isso não ia está acontecendo!”

JOHNIE

      “Qual é, Marreta? A única pessoa que eu boto fé é em você! Vai vacilar comigo, Marreta? Não acredito que tu vai vacilar comigo, Marreta! Quebra ele, Marreta! Quebra ele!”

RUAN

      “Eu já esperava que você fosse ficar do lado dela, Marreta! Só que você vai ter que se decidir! É nós, ou tu tá do lado dela, parcero? Você não tem muito tempo não! A escolha é sua?”

              (Marreta fica muito indeciso. Ruan aponta a arma dele para Johnie e em seguida, Marreta aponta também)

RUAN

      “Acabou o teu reinado, Johnie!”

              (Muito tenso, Rodrigo surge de forma inesperada no local)

RODRIGO

      “Ruan, para com isso! Você não é assim! Vamos sair desse lugar!”

RUAN

      “O quê, que você está fazendo aqui, Rodrigo?”

RODRIGO

      “Eu estou aqui, porque você é o meu melhor amigo! Você é meu irmão! E ainda há tempo de você começar de novo e ser feliz!”

RUAN

      “Eu te odeio, seu desgraçado! Eu te odeio..."

RODRIGO

      “Que isso, Ruan?”

              (Ruan fica completamente fora de si)

RUAN

      “É isso mermo! Eu te odeio! Esse teu jeito certinho me corrói... Eu vou acabar com essa sua vida correta! Eu vou te destruir pra sempre, seu desgraçado... Agora eu te mostrar qual é o fim desse caminho difícil, que você escolheu...”

              (Antes de Ruan matar Rodrigo, Marreta mata Ruan e atira com agilidade em Bicudo e Torresmo, que ficam feridos no chão. Marreta pega as armas de Ruan, Bicudo e Torresmo. No momento do tiroteio Rodrigo e Johnie se jogam no chão se protegendo dos tiros)

MARRETA

      “Vai embora, Rodrigo! Vai embora!”

              (Rodrigo deixa a laje correndo. Marreta confere o corpo de Ruan e algema Bicudo e Torresmo)

MARRETA

      “Fica aí! Se vocês se mexerem, eu vou ser obrigado a matar!”

              (Marreta vai á Johnie)

MARRETA

      “Johnie, você tá bem?”

JOHNIE

      “Tô! Pó, Marreta! Quase tu me mata do coração, cara! Parece até que tu já sabia, né? Bem que você falou pra eu mandar esse cara ralar peito daqui do morro! Aí, Marreta! Agora tu provou de verdade, que sempre vai ficar do meu lado! Agora, tô cheia de ódio no coração e vou matar essas pragas aí, tudinho...”

MARRETA

      “Tu não vai matar ninguém...”

JOHNIE

      “Como é que é, Marreta?”

MARRETA

      “Eu tô falando grego? Tu não vai matar ninguém! Entendeu agora?”

JOHNIE

      “Olha como você fala comigo, seu ignorante! Tu me respeita, seu abusado! Tu fala direito com a dona do morro...”

MARRETA

      “Você não é mais a dona do morro, Johnie!”

JOHNIE

      “Como é, que é?”

MARRETA

      “Você está presa!”

              (Marreta algema Johnie)

JOHNIE

      “Golpe de estado, Marreta?”

MARRETA

      “Que golpe de estado... eu ainda sou policial! Eu ainda sou da P-2! A minha prisão e expulsão da P-2, foram táticas, do serviço de inteligência, pra eu prender você! ...Eu ainda sou um policial, Johnie!”

              (Marreta pega seu celular e liga para o seu comandante)

MARRETA

      “Atende logo! Atende!”

              (O comandante dele atende ao telefone)

MARRETA

      “A ceia tá pronta! Não! Não! Tem que ser agora! Agora! Manda as crianças vir pegar a ceia senão ela vai esfriar...”

              (Ele fala em off ao celular)

TORRESMO

      “Desgraçado! Eu vou te matar, Marreta! Eu vou te matar!”

MARRETA (Falando ao celular)

      “Ok!”

              (Marreta desliga o celular e aponta uma arma para Torresmo)

MARRETA

      “Cala a boca! Cala a boca!”

JOHNIE

      “Oficial da P-2? Aí cara, tu me enganou bonitinho! Eu sou uma idiota mermo!”

              (Johnie dá tapas em seu rosto)

JOHNIE

      “Bem que lá no fundo eu desconfiava de você, Marreta! Sempre no celular... não fumava... não cheirava... sempre livrando a cara dos outros...”

MARRETA

      “Foi mal, Johnie! É o meu trabalho!”

Cena 8.3

      O Sargento França juntamente com seu pelotão, todos fortemente armados, invadem o local.

SARGENTO FRANÇA

      “Todo mundo parado! Todo mundo parado! Coloca as armas no chão e chuta tudo pra cá! É uma ordem! Mãos na cabeça! Todo mundo com as mãos na cabeça!”

              (Os bandidos e Marreta, cumprem as ordens do Sargento França, os soldados do pelotão recolhem as armas do chão)

SARGENTO FRANÇA

      “Agora eu quero todo mundo perfilado e de joelhos, aqui na minha frente! Quem tá ferrado, deita no chão, com as mãos na cabeça!”

              (Os bandidos e Marreta, cumprem as ordens)

BICUDO

      “Eu sou o policial...”

              (O Sargento França dá um soco na boca de Bicudo)

SARGENTO FRANÇA

      “Se eu quiser ouvir porcarias, eu mando você abrir boca!”

              (O sargento fica na frente dos bandidos)

SARGENTO FRANÇA

      “A mão que faz a violência...”

              (Marreta fica pensativo)

SARGENTO FRANÇA

      “A mão que faz a violência...”

MARRETA

      “Pode fazer a paz!”

              (O Sargento França acolhe Marreta)

SARGENTO FRANÇA

      “Terceiro Sargento França e pelotão Guerreiros e se apresentando!”

MARRETA

      “Apresentado! Sargento e pelotão ao meu comando! Me passa uma arma!”

              (O Sargento França passa uma arma para Marreta)

MARRETA

      “França, divide o pelotão em dois GCs! Um GC limpa o morro e outro GC desce com os bandidos e o corpo! Você e eu, descemos com a dona!”

SARGENTO FRANÇA

      “Sim, senhor! GC1!”

GC1

      “Guerreiros!”

SARGENTO FRANÇA

      “Comando um!”

              (O GC1 cumpre a ordem de limpar as drogas, os demais armamentos e os demais termos veiculados ao trafico do Morro do Querosene)

SARGENTO FRANÇA

      “GC2!”

GC2

      “Guerreiros!”

SARGENTO FRANÇA

      “Comando dois!”

              (O GC2 cumpre a ordem de desce com Bicudo, Torremos e o corpo de Ruan. O Sargento França avista o corpo de Ruan sendo recolhido por dois dos PMs do GC2)

SARGENTO FRANÇA

      “Esperem...”

              (O Sargento França observa o corpo de Ruan. Marreta recolhe Johnie)

MARRETA

      “Vamos... Vamos!”

JOHNIE

      “Você é um traidor, miserável!”

MARRETA

      “Cala a boca...”

SARGENTO FRANÇA

      “Caramba... aí, tenente! Aquele ali eu conheci! ...Veio a poucos dias lá do interior e já tá com formiga na boca!”

MARRETA

      “É... a morte é o fim do caminho fácil! Vamos, França!”

              (Os PMs do GC2 deixam o local levando o corpo de Ruan. Marreta passa Johnie para o Sargento França, que a imobiliza)

JOHNIE

      “Aí, Marreta! Quando eu sair da cadeia eu juro que vou te matar! Eu vou te matar! Você que se esconda! Eu juro que vou te encontrar e te matar, Marreta...”

SARGENTO FRANÇA 

      “Taba o esgoto, sua Marrenta! Agora você vai cantar de galo lá em Bangu 1!”

              (Todos deixam o local)

ATO IX

6 meses depois. Noite. Igreja evangélica do morro do Querosene.

Cena 9.1

      A igreja está repleta de convidados. A Pastora Olinda está no altar. Dolores entra na igreja, com uma cesta de pétalas de rosas. Ela joga as pétalas no chão do corredor central da igreja até chegar diante do altar. 

OLINDA

      “Vamos receber o noivo? Então, que entre o noivo!”

              (Rodrigo entra na igreja, passa pelo corredor central e fica diante do altar)

OLINDA

      “Agora vamos receber a noiva!”

              (Luiza entra na igreja, passa pelo corredor central e chega até o altar. Ela envolve seu braço no de Rodrigo e ficam diante do altar)

OLINDA

      “Estamos reunidos aqui, no nome do SENHOR JESUS CRISTO, para selar a união deste casal. O casamento é uma dádiva de DEUS na vida do ser humano! A bíblia diz em 1º Timóteo, capítulo 3, versículo 12 que: o homem de DEUS deve ser marido de uma só mulher e deve governar bem os seus filhos e sua própria casa. E em Provérbios capítulo 12, versículo 4 que: A mulher virtuosa é a coroa do seu marido. Rodrigo, você aceita Luiza, como sua legítima esposa, e promete ser fiel a ela até a morte?”

RODRIGO

      “Sim!”

OLINDA

      “Luiza, você aceita Rodrigo, como seu legitimo esposo, e promete ser fiel a ele até a morte?”

LUIZA

      “Sim!”

OLINDA

      “As alianças!”

              (As alianças são entregue á Pastora. Luciano Marreta e o Sargento França chegam à cerimônia)

OLINDA

      “Por favor, fechem os olhos!”

              (Todos fecham os olhos)

OLINDA

      “SENHOR DEUS! Eu abençôo essas alianças no nome do SENHOR JESUS CRISTO!”

              (Olinda entrega uma aliança a Rodrigo. Ele coloca a aliança no dedo anular da mão esquerda de Luiza) 

RODRIGO

      “Luiza, com essa aliança, eu prometo ser fiel a você em todos os minutos da minha vida! Também prometo te amar e te respeitar! Na riqueza, na pobreza... na alegria e na tristeza!”

              (A pastora entrega a outra aliança a Luiza. Ela coloca a aliança no dedo anular da mão esquerda de Rodrigo)

LUIZA 

      “Rodrigo, eu também prometo ser fiel a você! Enquanto eu viver eu vou amar você!”

OLINDA

      “Por favor, fechem os olhos!”

              (Todos fecham os olhos)

OLINDA

      “Eu os abençôo no nome do SENHOR JESUS CRISTO! E vos declaro: marido e mulher! Até que a morte vos separe! Amém!

              (Todos abrem os olhos)

OLINDA

      “Pode beijar a noiva!”

RODRIGO

      “Eu te amo!”

LUIZA

      “Eu também, te amo!”

              (Dolores joga papel picado para o alto. Rodrigo e Luiza se beijam. Olinda e os demais presentes batem uma salva de palmas)

FIM

2 comentários:

  1. Clemente, eu achei lindo!
    Também bati palma no final.
    O começo ao fim do texto, me cativou quis logo terminar para saber do final.

    Beijinho moço

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  2. Oii, querido! Muito obrigada pelos comentários e elogios que faz ao meu blog!!! ´ótimo ler seus comentários!!!

    Parabéns pelo texto dramático, meu querido! Você tem talento!!!

    Comente em minha crítica sobre a nona temporada de Two and a Half Men, no Entretenha a Mente: www.artes-e-entretenimento.blogspot.com

    Conto com você!!! ^^

    Mil beijos
    Mari.

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